Por força da sua geografia e das vicissitudes da história, Portugal tem sido um pioneiro nas infraestruturas de comunicação entre a Europa e o mundo. Foi aqui que, no século XV, se desenvolveram as tecnologias que tornaram o oceano conhecido e que ligaram a Europa a um mundo que até então era conhecido através de lendas. A partir de então a informação obtida desvendou as lendas o conhecimento alcançado tornou o mundo mais próximo.
No século XIX o mundo acelerou outra vez: a informação deixou de ser transportada pelo correio marítimo e passou a ser transmitida por impulsos elétricos. Também nessa altura e apesar de não ter desenvolvido nenhuma destas tecnologias, Portugal soube ser um pioneiro na sua adoção, por isso quando apenas tinham passado uns meros 15 anos da estreia mundial do primeiro cabo submarino, Portugal ligou-se a essa rede. Nessa altura, já todas as capitais de distrito estavam ligadas por telégrafo através de uma rede com mais de 1.600 km de linhas .
Neste segundo quartil do século XXI à beira de mais uma fronteira digital, quem assistiu aos vários painéis da SIS 2026 Summit do passado mês de abril ficou com poucas dúvidas de que Portugal e, de forma geral, a Península Ibérica, têm uma oportunidade única de ser tornarem uma peça central deste universo. Prosaicamente dir-se-ia que se trata uma oportunidade única de juntar ao papel de cenário pitoresco de posts de redes sociais, o de hub da sua infraestrutura.
Naturalmente, para além da localização estratégica no cruzamento dos corredores do Atlântico e do Mediterrâneo, a nova centralidade da Península será impulsionada por dois vetores cruciais: o crescimento exponencial da Inteligência Artificial (IA) e a abundância de energias renováveis.
Isto, contudo, não é suficiente. É que comparando conceptualmente, as infraestruturas digitais assemelham-se mais a uma roda de bicicleta (com os seus cubos, raios e aros) do que a silos isolados ligados entre si. Nesta lógica de ecossistema, um centro de dados sem conectividade seria apenas um 'frigorífico caro' da mesma forma que um cabo submarino que não sirva centros de dados ou não tenha uma rede terrestre capilar a que se ligar a ninguém serviria.
Portanto, para Portugal, não basta dispor de 20 cabos submarinos ativos ou planeados com ligação a 60 países. É imperativo garantir redes terrestres robustas que assegurem a capilaridade das ligações de dados, impedindo que o país se limite a ser um mero apeadeiro digital e se transforme, efetivamente, num destino relevante.
De resto, parecem subsistir poucas dúvidas quanto à pressão que o novo ciclo de IA está a exercer sobre as infraestruturas. Estima-se que as necessidades de conectividade possam vir a ser 37 vezes superiores às atuais. Este salto quantitativo explica-se pela evolução do modelo de computação usado: embora os grandes modelos de linguagem (LLM) se encontrem ainda numa fase de treino que exige arquiteturas centralizadas, a transição para a fase de inferência exigirá uma arquitetura distribuída e de baixa latência junto à periferia (também conhecida por edge) .
Por conseguinte, a escala dos projetos atravessa uma mudança de paradigma. Se, há poucos anos, a capacidade instalada dos centros de dados em Portugal se media em megawatts, hoje o mercado discute abertamente projetos de gigawatts. Esta mudança – reconhecida pelos operadores de rede – reflete-se a montante na própria gestão da infraestrutura energética: onde antes existiam meras estimativas de reserva de capacidade na rede elétrica para centros de dados, hoje verificam-se encomendas firmes e contratos de fornecimento de grande escala.
A dimensão da sustentabilidade e da autonomia energética ganhou uma acuidade inesperada face aos atuais eventos geopolíticos. Neste contexto, mais uma vez, a Península Ibérica apresenta condições ímpares na União Europeia, com Portugal a registar, em 2025, 68% do consumo assegurado por energias renováveis e a Espanha a aproximar-se com uns respeitáveis 56% e mantendo ambos os países a meta de ultrapassar os 85% até 2030. Além disso, os custos de energia para consumidores não domésticos são cerca de 25% inferiores à média europeia, o que constitui uma vantagem crítica para indústrias eletrointensivas.
A geografia nacional permite ainda o recurso a sistemas de arrefecimento mais eficientes, utilizando água do mar ou a reutilização de calor residual, reduzindo o impacto ambiental e alinhando o setor com a transição energética.
Paralelamente aos corredores Atlântico e Mediterrânico, o eixo África-Europa merece atenção, com os cabos Medusa e Nuvem a juntarem-se, nos próximos anos, aos três recentemente ligados a Portugal . O potencial de crescimento do continente africano é estimado em 5,5 vezes a capacidade atual, redesenhando o tráfego entre continentes para garantir maior fiabilidade e redundância de forma a evitar pontos de estrangulamento geoestratégico como o Mar Vermelho.
Em suma, a janela de oportunidade para a Península Ibérica existe, mas exige agilidade para evitar a fuga de investimento para os mercados do Norte ou do Centro da Europa. O sucesso dependerá da capacidade de transformar o atual volume de projetos imaginados em realidades palpáveis.